sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Música, ele disse

Ele, Huxley:

   ~Quero dizer agora agumas palavras sobre a mais difícil das artes, a música. A música é um campo misterioso das artes porque os símbolos de que faz uso são remotos em relação à nossa experiência imediata. Na literatura usamos palavras que têm significado pré-fixado, e na pintura usamos formas do mundo exterior que nos são bastante familiares. Mas na música usamos sons que parecem ter vida própria, apartada do mundo exterior, e um ritmo que, embora tenha analogias com ritmos naturais, é totalmente independente deles. E como todos grandes músicos insistem em dizer, e como qualquer pessoa que tenha compreendido a música concorda, a música tem uma espécie de significado cognativo. Diz algo sobre a natureza do universo. Beethoven insistia muito nisso, e encontramos afirmações parecidas de quase todos os grandes compositores. Eles têm essa sensação intensa de que o que estão dizendo não é meramente um desenho de sons.
     Numa base estritamente individual, esses ritmos complicados nos dizem algo sobre os ritmos igualmente complicados da vida interior do homem. Esses são inexprimíveis em palavras, mas muitas coisas não podem ser expressadas em palavras. Exemplo disso é quando lemos uma explicação dizendo: "Nesse momento Beethoven expressava sua agonia por estar longe da amada", ou coisa assim. Em outro lugar diriam: "Nesse momento Beethoven ria da comédia da vida".
     Tudo isso prova que as palavras são meios muito insuficientes para dizer o que é a música - é um tipo muito obscuro e sutil de movimentos dentro da mente-corpo e do espírito. E talvez a música seja ao mesmo tempo o universo em movimento. Parece exprinir um dinamismo puro e não-físico do mundo exterior. Parece até exprimir o que Bergson descreveu quando falou de William James:

  "As poderosas emoções que agitam a alma em momentos especiais são forças tão reais quanto essas que interessam aos físicos; o homem não as cria mais do que cria a luz ou o calor. Estamos mergulhados numa atmosfera repassada por grandes correntes sencionais(ou espirituais)."

     Isso pode soar como uma visão mística do que a música representa e do que na verdade todas as artes representam.
     Todas as artes, embora falem sobre nós e nossa relação com a experiência, dizem-nos ao mesmo tempo algo sobre a natureza do mundo, sobre as misteriosas forças que sentimos em torno de nós e sobre a ordem cósmica da qual parecemos ter, por vezes, algum lampejo de compreensão.~


Ele que disse, eu sinto que é, eu sinto que sim.
Amanhã novo ano, novo ciclo, nova vida, novo caos instaurado no peito. Amanhã, apenas outro amanhã na verdade, só que cheio de ressaca, amanhã. Não apenas outro, mas Um, um dia que irá nascer com todo o potencial de dia novo, para podermos, quem sabe, enquanto caminhamos pelas pedras iluminadas pelo sol, ter algum lampejo de compreensão da ordem cósmica que nos circunda e que, aos nossos sentidos tão humanos, nos parece demasiado caótica. Limitado, eu não aguento mais ver vocês contando números. Chega

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